Há
oitenta anos, Keynes escrevia “especuladores podem não causar danos como
bolhas em um cenário estável de empreendimentos. Mas, a situação é
séria quando o empreendimento se torna a bolha em um turbilhão de
especulação. Quando o desenvolvimento do capital de um país torna-se o
subproduto das atividades de um cassino, é provável que o trabalho seja
mal feito” (1964, p. 159). Talvez fosse melhor, em termos estéticos ou
palatáveis, ter deixado a citação nos moldes convencionais de uma
epígrafe, mas, já outra no lugar. Ademais, tal não daria a ênfase
necessária às palavras de Keynes que são mais válidas agora do que nos
anos 1930, haja vista o surto de inovações financeiras atual.
O sistema financeiro, como sua própria qualificação aduz, é uma
estrutura sustentada na fiança coletiva, isto é, na confiança. Sua
lógica é a criação de recursos monetários do nada que permitam a
ampliação da riqueza ao longo do tempo. No futuro, aquilo que era antes
recurso fictício torna-se produto concreto e, assim, dá-se
prosseguimento à expansão da riqueza do sistema capitalista. Porém, ao
passo em que viabiliza a expansão da riqueza, quando a psicologia do
mercado financeiro surta e descola-se da realidade, os impactos sobre o
lado real da economia são notáveis. Há cinco anos, nos EUA, eclodiam-se
os sentidos financeiro e psicológico possíveis do substantivo surto.
Antes da manifestação súbita de alguma coisa, os EUA
acumulavam bons indicadores econômicos: em média, entre janeiro de 2001 e
agosto de 2008, a produção industrial cresceu 1,3% ao mês e a taxa de
desemprego situou-se em 5,2% mensais. Por sua vez, a expansão anual
média do produto alcançou 2,52% no período 2001-2007. Em suma, tinha-se
um quadro de dinâmica econômica favorável para a manutenção dos níveis
de emprego e de renda no país mais rico do mundo. No âmbito financeiro,
entre janeiro de 2003 e outubro de 2007, usando como proxy o
comportamento dos Índices Dow Jones e Nasdaq, assistiu-se à valorização
de aproximadamente 60% dos papéis, ou seja, um surto – elevação, voo –
financeiro bem superior ao crescimento da riqueza real em período
semelhante. Em suma, uma bolha financeira foi surtada, acompanhada por
bons números do lado real da economia, mas deles descolados.
As séries de apostas dos agentes, em inovações financeiras amplamente defectíveis, tornaram-se uma crise psicótica em setembro de 2008. A onda de inadimplência iniciada no subprime espalhou-se
pelo sistema financeiro, implicando toda uma cadeia de descumprimento
de contratos de dívida extremamente compartidos entre os agentes e
financeiramente alavancados.
Dois resultados imediatos do surto psicológico nos mercados
financeiros sobre o lado real da economia foram: (i) a escassez de
liquidez para financiamentos e (ii) o surto de descrença com relação ao
futuro. Assim, o surto sistematizou-se: eis a crise. Os dados americanos
são bastante ilustrativos: decrescimento do PIB em 2008 e 2009, – 0,35%
e – 3,20%, respectivamente; desemprego elevado a 10% em fins de 2009
enquanto que a retração da produção industrial no referido ano foi da
ordem de 10,1% ao mês, em média.
Do surto financeiro, fez-se o surto psicológico e a crise econômica.
Para alguns, apreciação dos papéis e ganho em juros foram o resultado.
Contudo, o prejuízo público foi incomensuravelmente maior. Enfim, surtos
e o débâcle são regras do sistema financeiro tal qual o
entusiasmo do ébrio e o comedimento do sóbrio. Sem regulamentações
prudenciais que limitem as estratégias competitivas das instituições
financeiras e circunscrevam os mercados do sistema financeiro a
contornos diferentes aos de um cassino, a simbiose entre os lados
financeiro e real será persistentemente negativa. E, não é de hoje que
se diz isso.
*Professor do IEUFU e Diretor da Associação Keyenesiana Brasileira.
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5 anos de crise: do surto financeiro à crise econômica
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